Produção e transporte convivem com a mesma demanda. Porém, cada um lida com a capacidade de uma forma diferente. Quando a demanda aumenta, a indústria pode recorrer ao estoque para absorver parte do desencontro entre produção e consumo. O transporte, por outro lado, não conta com esse recurso. Um caminhão que não está disponível hoje não pode ficar armazenado para atender a demanda de amanhã.

Por isso, quando a capacidade não acompanha a demanda, a operação precisa reagir. E essa reação pode aparecer de várias formas: filas, fretes emergenciais, contratação de terceiros, ociosidade, atrasos e perda de nível de serviço.

O problema, portanto, começa antes da falta de caminhões. Ele começa no planejamento da capacidade de transporte.

Transporte não tem estoque

Na produção, o estoque funciona como uma espécie de amortecedor. Quando a demanda oscila, a empresa pode usar produtos já disponíveis para reduzir o impacto dessa variação.

No transporte, a lógica muda.

Se a empresa precisa transportar mais volume do que sua capacidade suporta, ela precisa encontrar recursos adicionais. Além disso, precisa considerar onde esses recursos estão, quando estarão disponíveis e quanto custará utilizá-los.

Assim, uma decisão que parecia operacional pode gerar consequências financeiras e de serviço.

Como explica a apresentação sobre S&TP, o que a capacidade não consegue atender vira fila ou frete emergencial.

Portanto, a pergunta não deveria surgir apenas quando a demanda já chegou:

“Onde vou conseguir mais capacidade?”

A pergunta precisa aparecer antes:

“Qual capacidade eu vou precisar?”

O dilema entre média e pico

Agora, imagine duas operações completamente diferentes: uma igreja e um estádio.

A igreja recebe pessoas de forma relativamente estável. Já o estádio concentra grandes volumes em determinados momentos.

Nesse cenário, surge um dilema.

Se a empresa dimensionar a capacidade do estádio pelo pico máximo, terá recursos ociosos durante boa parte do tempo. Por outro lado, se dimensionar pela média, faltará capacidade justamente nos momentos de maior demanda.

Essa analogia apresentada na palestra ajuda a visualizar um dos principais desafios do transporte: encontrar o equilíbrio entre capacidade suficiente e capacidade ociosa.

Além disso, diferentes operações enfrentam diferentes padrões de demanda.

Por isso, não basta olhar apenas para um volume médio.

É necessário entender quando, onde e como a demanda acontece.

“Preciso de caminhão” não significa planejamento

Em muitas operações, a discussão sobre capacidade aparece somente quando surge uma necessidade concreta.

A demanda aumentou? Então a empresa procura mais caminhões.

Uma região passou a receber mais pedidos? Então redistribui a frota.

Um período promocional se aproxima? Então busca terceiros.

À primeira vista, essa lógica parece simples. Entretanto, ela transforma uma decisão de planejamento em uma reação operacional.

E capacidade de transporte envolve muito mais do que quantidade de veículos.

Também entram nessa conta:

  • frota própria;
  • transportadores terceiros;
  • terminais;
  • Transit Points;
  • posicionamento dos recursos;
  • frequência de atendimento;
  • carga e descarga.

Além disso, o gargalo nem sempre está no número de caminhões.

Na palestra, Arthur Hill destaca que uma operação pode perder capacidade justamente nas atividades de carga e descarga.

Ou seja: colocar mais veículos na operação nem sempre resolve a falta de capacidade.

A demanda de transporte não é igual o ano inteiro

Outro ponto importante aparece quando analisamos o comportamento da demanda.

Uma operação pode ter uma parcela de volume relativamente estável. Ao mesmo tempo, pode enfrentar períodos sazonais e, ainda, volumes esporádicos.

A palestra divide esses comportamentos em três grupos:

Basal: a demanda que permanece relativamente estável.

Sazonal: a demanda que varia por fatores como promoções ou condições específicas.

Esporádica: a parcela pontual, associada ao chamado spot.

Essa divisão ajuda a entender por que uma única estratégia de capacidade pode não atender bem toda a operação.

Por exemplo, a demanda basal pode justificar uma capacidade mais dedicada. Já a demanda sazonal pode exigir colaboração ou recursos mais flexíveis. Por sua vez, a demanda esporádica pode recorrer ao mercado spot.

Portanto, entender a demanda é parte essencial do planejamento da capacidade.

Quando o transporte fica fora do planejamento

Existe ainda uma questão mais ampla.

As empresas já discutem produção, estoque, compras e disponibilidade de produtos dentro dos seus processos de planejamento. No entanto, o transporte muitas vezes entra nessa conversa apenas depois que essas decisões já aconteceram.

Assim, surge uma premissa perigosa:

“Se eu precisar de caminhão, consigo um caminhão.”

Na prática, nem sempre funciona assim.

A capacidade tem restrições. Além disso, essas restrições podem variar de acordo com a região, o período, o tipo de operação e o comportamento da demanda.

Por isso, o planejamento precisa considerar o transporte antes que a necessidade chegue à operação.

É justamente nesse ponto que aparece a dor central do S&TP: transformar a previsão de demanda em uma visão antecipada da capacidade necessária para atendê-la.

A proposta apresentada na palestra não cria um planejamento paralelo. Em vez disso, o conceito parte do S&OP e leva sua visão para as decisões de transporte.

Planejar produção e improvisar transporte transfere o problema

Uma empresa pode planejar cuidadosamente quanto produzir, quanto comprar e quanto manter em estoque.

Porém, se ela não consegue transformar essa visão em uma decisão de capacidade de transporte, parte dessa eficiência pode desaparecer na distribuição.

A consequência aparece depois:

mais urgências, mais ociosidade, mais custos e mais pressão sobre a operação.

Além disso, quanto mais complexa a operação, maior pode ser o impacto dessa falta de planejamento.

Afinal, uma pequena diferença entre demanda e capacidade pode ganhar outra dimensão quando a empresa trabalha com milhares de pontos de entrega, múltiplas regiões, diferentes perfis de demanda e uma combinação de frota própria e terceiros.

Por isso, o problema não está apenas em transportar.

O desafio está em estar preparado para transportar.

A pergunta que precisa entrar no planejamento de capacidade de transporte

A discussão sobre capacidade de transporte começa muito antes da roteirização e da execução.

Primeiro, a empresa precisa entender a demanda.

Depois, precisa avaliar como essa demanda se comporta ao longo do tempo e no espaço.

Em seguida, precisa transformar essa informação em decisões sobre capacidade.

Caso contrário, a operação continuará reagindo aos problemas depois que eles aparecerem.

E esse é o ponto central:

transporte não tem estoque para absorver uma decisão de capacidade mal dimensionada.

Portanto, quando uma empresa planeja a produção, mas deixa o transporte para resolver depois, ela não elimina a ineficiência.

Ela apenas transfere a ineficiência para a distribuição.

A dor do planejamento de capacidade de transporte é o que o conceito de S&TP: Sales & Transportation Planning busca colocar no centro da discussão sobre planejamento logístico. Fale conosco e entenda mais!

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Categorias Planejamento da cadeia de suprimentos

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